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Publicado em: 21/02/2008

Pelo ensino da autonomia e da felicidade

Roni Filgueiras

   Divulgação/Ippur 

     
  Para Moacelio V. Silva Filho, a escola tradicional
  não dá a autonomia necessária aos seus alunos

A evasão escolar não é um drama apenas nacional. Trata-se de um fenômeno planetário. Uma crise do ensino mundial, que deflagrou várias experiências na área. Uma das mais bem-sucedidas e conhecidas é a da Escola da Ponte, em Portugal, inaugurada em 1976, se orgulha de estimular a autonomia de seus alunos num projeto educacional oposto ao tradicional. No Brasil, Moacelio Veranio Silva Filho há anos estuda uma experiência pioneira da pedagogia que surgiu no Canadá, em 1969. Seu projeto, que ganhou incentivo da FAPERJ, vai gerar um livro a partir do projeto “A aprendizagem baseada em problemas (PBL) na educação profissional de jovens e adultos (EJA) Avaliação do potencial de aplicação da PBL: Um estudo de caso na capacitação de professores do município de Araruama”.

Silva é professor de Faculdade de Farmácia da UFF e pesquisador da Fiocruz, há quase 30 anos. Mestre em microbiologia e doutor em bioquímica, Silva conhece bem a realidade das salas de aula. A partir de 1986, ele se tornou professor no ensino médio, na Escola Politécnica de Saúde da Fiocruz, e descobriu logo que os papéis de aluno e professor precisavam ser revistos. “Nunca aprendi tanto como na sala de aula com meus alunos”. Silva acredita na proposta construtivista, inaugurada por Piaget, em que não só o professor é detentor do saber, mas também o aluno. No construtivismo o aluno é sujeito ativo na construção do conhecimento, que é feito por meio da interação desse sujeito e o meio. “Há uma rigorosa resistência a métodos construtivistas na educação brasileira, que acredita que a lógica curricular em cima do aluno gera alienação política”, defende Silva.

A aprendizagem baseada em problemas (PBL), uma técnica construtivista radical, começou na Escola de Medicina da Universidade McMaster, em Hamilton, Canadá. E de lá se espalhou por outras faculdades de medicina. A PBL se baseia na proposta de trazer para a sala de aula dados da realidade do aluno. “Nesta prática pedagógica os estudantes se deparam com uma situação-problema e precisam investigá-la em pequenos grupos colaborativos e solidários, usando três estruturas básicas de investigação: o que nós já sabemos? O que nós precisamos saber? De que forma podemos encontrar as informações? Na década de 90, a PBL foi introduzida no Brasil na Faculdade de Medicina de Marília, ligada à USP; e na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná; e ainda na Escola de Saúde Pública do Ceará. “A idéia da PBL é que o aluno escolha seus próprios caminhos de estudo, orientados pelo professor, mas de forma livre. Neste método, o aluno tem direito de escolher o livro, a complementação de estudo e com qual professor ele quer estudar. A idéia central é o trabalho colaborativo. A motivação individual e do grupo, que reúne até 12 pessoas”. Segundo Silva, a escola, como é moldada hoje, é centrada no professor e no conteúdo. “Mas, depois de terminar o curso, ele tem de enfrentar a realidade do mundo, em que tem de enfrentar desafios para o qual não está preparado”.

Mas o foco do pesquisador da UFF é a aplicação da PBL no ensino básico e médio. Para isso, ele toma como modelo a bem-sucedida experiência americana. Nos EUA, desde 1995, a PBL é aplicada no ensino público obrigatório, o chamado Kindergarten ou K12, que vai até o 12 anos, em quatro mil escolas. “Não existe disciplina, o currículo é montado em problemas, chamados ISP (Ill-structered problems), unidade de medida, que traduzi como situação-problema. Em relação ao desempenho, Silva confirma a superioridade no desempenho entre alunos que aprenderam por meio da PBL e aqueles que foram educados pelos métodos tradicionais citando, entre vários dados, o artigo Problem based learning, publicado em 2003, na British Medical Journal, conceituada publicação científica médica. “O artigo destaca que essa prática pedagógica facilita não só a aquisição de conhecimento como também desenvolve as estratégias de comunicação, o trabalho em equipe, a solução de problemas, a responsabilidade individual pela aprendizagem, o compartilhamento de informações e o respeito mútuo”.

E, além disso, acrescenta Silva, há uma comprovada eficácia na rapidez do pensamento. “Estudos comparativos indicam que alunos formados pela PBL retêm mais o conhecimento adquirido” e as respostas para os problemas são seis vezes mais rápidas do que as dadas pelos estudantes tradicionais. “Testes mostraram que os profissionais formados na PBL são seis vezes mais rápidos do que os profissionais do currículo tradicional. Eles relacionam melhor o conteúdo geral com o específico”, atesta.

A pesquisa de Silva pretende criar um material didático, pois a bibliografia em português é quase inexistente. Para isso ele vai arregimentar 20 professores de quatro escolas, de sete municípios da Região dos Lagos, reunindo-os no Colégio Estadual Edmundo Silva, em Araruama. Em dezembro, o livro, ainda sem título, estará pronto, e será assinado em conjunto. Para ele, o maior obstáculo no desenvolvimento de um método adequado à realidade brasileira é “imaginar os problemas que poderiam ser levados para a sala de aula”. O enfoque é trazer a vida real desses alunos do ensino fundamental e médio para a sala de aula e prepará-lo para a alegria de viver. “Não pode ser algo que o afaste da vida real, pois é a vida dele que deve estar na sala de aula”.

A PBL, que, além de ser adotada nos EUA, já seduziu vários países da Europa, não é apenas eficiente em criar bons profissionais. Sua diferença está sobretudo na ênfase no humano. “É um ensino inclusivo, pois os estudantes são incentivados a seduzir o outro, pois eles têm de aprender a absorvê-lo”. Ainda usando o mundo das estatísticas, a PBL ganha pontos em vista dos métodos clássicos quando se trata da inclusão. “Dados comprovaram que no caso da deficiência média, o estudante da PBL teve uma diferença importante. Os estudantes da PBL se sentiam mais na obrigação de passar o conteúdo para o colega portador de deficiência, pois este é um método mais solidário, e assim capacitá-lo a entender mais o outro”.

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